Bolsonaro está acuado e são essas 17 ações que estão agradando sua base

Análise publicada anteriormente no LinkedIn Está perdido sobre o cenário nacional? Calma. Tem coisa demais acontecendo mesmo e essa bagunça pode ser proposital (e é).

O ambiente está realmente tensionado entre os poderes e, desde a carta dos banqueiros e economistas pedindo foco na atuação da pandemia, além do retorno de Lula ao jogo político, Bolsonaro parece ter sentido o baque.

Bolsonaro está sob ataque e embora possa até parecer, ele não está observando isso de forma passiva. Ele sabe muito bem se mover no caos e vive disso.

Sua avaliação está caindo a todo momento, conforme mostram as últimas pesquisas divulgadas. Ocorre que um dado específico da última sondagem da XP me chamou atenção: a queda de três pontos percentuais, ainda que dentro da margem de erro, da avaliação da atuação de Bolsonaro pela pandemia e a piora de 5 pontos percentuais na avaliação dos governadores. Sim, ele está conseguindo se safar da responsabilidade de comandar o país durante a crise sanitária.


Como sempre comento por aqui as muitas artimanhas na condução da narrativa por parte do bolsonarismo, abaixo destrincho algumas que tem servido para desviar a atenção de temas extremamente importantes, como o aumento da inflação, da fome, da pobreza e a preocupante falta de vacinação.


Peças-chave e polêmicas:


1) O PL das vacinas pautado a toque de caixa por Arthur Lira, o novo presidente da Câmara, com baixíssima efetividade real sobre a vacinação e que me parece ter sido feita para agradar empresários e ocupar a discussão pública com uma narrativa de que o mercado pode ajudar e a oposição está atrapalhando. Mesmo com tal aprovação, os laboratórios já avisaram que não vão vender para empresas e está claro para todos que faltam insumos para produção da vacina em nível global.


2) Toda a mudança no comando das Forças Armadas. Há muitas suposições sobre o caso, mas o certo é que ainda há muitos militares no governo e a mudança não mexeu, de fato, na relação com as instituições. O que se tem certeza é que a bagunça ajudou a embolar a narrativa e, de quebra, diminuir a pressão da saída de Ernesto Araújo do ministério das Relações Internacionais. Nesse ponto há uma observação, a própria base de Bolsonaro ficou confusa com as mudanças, então esse não está necessariamente dentro das ações que me pareceram propositais, mas terminaram servindo ao fim de mudar o foco da narrativa.


3) A defesa do tratamento precoce por parte do presidente do CFM. Ponto para Bolsonaro, que ainda sai por cima como um defensor da “liberdade” dos médicos em prescrever o que acham melhor para seus pacientes.


4) Os seguidos ataques às medidas restritivas de circulação por parte de Bolsonaro e correligionários, com direito até a uma visita estratégica a Chapecó (SC), a capital do negacionismo. A estratégia de responsabilizar prefeitos e governadores parece ótima, já que eles têm gasto muito tempo desmentindo o nó criado na cabeça do eleitorado.


5) Polêmico argumento da Receita Federal sobre somente ricos lerem livros e eventual taxação. A discussão é absurda e não vai para lugar nenhum.


6) Gesto supremacista branco de Filipe Martins, demitido essa semana sem alardes.


7) Ataques ao Censo e à metodologia do IBGE que mostra os números sobre desemprego. Para Bolsonaro, o instituto não está divulgando os empregos gerados nos últimos meses. Sabemos que é mentira, mas essa falta de crença às instituições e pesquisas valoriza a retórica bolsonarista.


8) Jantar e apoio de empresários, que são sempre os mesmos desde o começo da gestão e que foram, inclusive, fortes aliados para a chegada de Bolsonaro à Presidência. A ideia aqui é demonstrar força e que há sustentação do governo. Relatórios de mercado otimistas à vacinação também ajudam nesse aspecto, como o recente relatório da XP.


9) Criação de um Comitê Gestor da Pandemia, que não serviu para nada além de diminuir a pressão sobre Bolsonaro.


10) Insistência em fraudar a história afirmando que houve comunismo no Brasil. Seu filho, Eduardo Bolsonaro até criou a campanha “Vou Pra Guerra Com Bolsonaro” mostrando o quanto seu pai é favorável à liberdade, esse discurso também mexe com uma narrativa militar e de tornar público o inimigo, essencial para manter a base ativa.


11) Materiais esperançosos apócrifos como o "7 razões para acreditar", que muita gente compartilhou nos Stories do Instagram. Muito suspeito o conteúdo que usava dados dos EUA para sustentar que a pandemia está próxima do fim também no Brasil.


12) Divulgação de vídeos e conteúdos fora do contexto afirmando que Bolsonaro tem, sim, se preocupado com o Brasil e programas de vacinação e distorcendo falas de políticos e especialistas, lembrando da liberação do carnaval como grande culpada da pandemia.


Além disso, há todo um campo que entendo que necessita de uma análise a parte, a atuação no campo da religiosidade no que alguns autores como Orlando Calheiros vêm chamando de teocracia difusa:


13) Decisão monocrática a favor de cultos religiosos por parte do indicado de Bolsonaro ao STF, Kassio Marques Nunes, certamente agradou a base. Gerou uma discussão sobre direito à religião e mostrou (ainda que falsamente) a religiosidade cristã está sob ataque no país.


14) Defesa de André Mendonça, seu indicado na Advocacia-Geral da União, em sustentação oral ao STF citando a bíblia como argumento jurídico. Rendeu frases como "A igreja não vai se curvar", "O templo é o lar inviolável da liberdade religiosa" e "Cristãos estão dispostos a morrer". Aliás, válido notar que os novos ministros são extremamente fiéis ao bolsonarismo.


15) O ministro da Educação defendeu homeschooling em audiência e afirmou que socialização da criança pode ser na igreja. Pauta antiga aos conservadores brasileiros, em cópia ao que já acontece nos EUA.


16) Bolsonaro convocou a população para um “dia de jejum e oração pela liberdade”. Concomitantemente a isso, ele faz visitas estratégicas a comunidades bíblicas carentes para passar a imagem de homem simples.


17) Haverá uma nova vaga no STF e Bolsonaro poderá indicar o novo ocupante em julho. Em um culto recente, ele declarou que o nomeado não será apenas “terrivelmente evangélico”, mas também um pastor atuante. “Imaginemos as sessões daquele Supremo Tribunal Federal começarem com uma oração. Tenham certeza de uma coisa. Isso não é mérito meu. É a mão de Deus”.


A esquerda e o campo progressista em geral discutiram (e ainda discutem) todos esses assuntos à exaustão. E isso, no momento em que metade da população não tem garantia de comida na mesa e a sociedade civil se desdobra em campanhas de arrecadação de alimentos. Um problema sério, grave e que havíamos resolvido.


O governo de Bolsonaro é uma tragédia e nós estamos, ainda, presos em sua narrativa. Eu não duvido que sua capacidade narrativa lhe conceda alguns pontos de recuperação de sua avaliação frente à responsabilização de outros atores como governadores e prefeitos.

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