Como é feita uma pesquisa eleitoral e qual sua importância?

Por Rennan Pimentel


Pesquisa eleitoral é um tema muito polêmico em ano de eleição. Parte do eleitorado brasileiro acredita que os resultados das pesquisas são manipulados. Há um certo questionamento mais ou menos difuso em parte do senso comum sobre como uma pesquisa com 2.000 pessoas pode representar a totalidade de um país tão grande como o nosso. Com frequência, políticos e militantes questionam a divulgação das pesquisas, sobretudo quando o resultado é desfavorável para suas preferências, alegando que elas têm o poder de influenciar os votos dos eleitores. Muitas são as perguntas em torno desse tema e em ano eleitoral respondê-las é ainda mais importante.


Com a proximidade do pleito, cada vez mais acompanhamos nos principais meios de comunicação a divulgação de dados de pesquisa de intenção de voto dos brasileiros. A pesquisa constitui parte importante do processo eleitoral, pois apresenta um panorama da vontade popular e influencia a candidatos pensarem em estratégias, a partidos formarem alianças, incentiva o voto útil, influencia o mercado financeiro, além de direcionar a cobertura jornalística uma vez que os meios de comunicação tendem a destacar quem realmente é relevante para disputa eleitoral. A pesquisa é importante inclusive para os partidos políticos, é a partir dela que vão desenvolver suas estratégias, avaliar a viabilidade de determinadas candidaturas e formar suas alianças.


Mas afinal, como uma pesquisa é feita?


Pesquisa eleitoral é um estudo científico com métodos e resultados claros, algo bem diferente de enquetes nas redes sociais que são feitas sem adoção de qualquer critério técnico. Portanto, para se obter uma pesquisa eleitoral é necessário contratar um Instituto de Pesquisa para elaborar um estudo sobre o comportamento eleitoral das pessoas. Geralmente quem contrata esses institutos são os partidos, grupos de comunicação e instituições financeiras, uma vez que trata-se de uma pesquisa relativamente cara.


Após contratada a pesquisa, o instituto define uma amostra que seja representativa da sociedade brasileira, utilizando dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Assim, a pesquisa define um grupo de pessoas de cidades de pequeno, médio e grande porte com diferentes características como idade, renda, gênero, escolaridade, religião, entre outros, para representarem toda a população. Essas particularidades são chamadas de variáveis e o grupo selecionado de amostragem. Tal movimento é necessário para escolher um número limitado de pessoas, em que as características delas sejam parecidas com a sociedade brasileira. Assim, a amostra é o conjunto de dados coletados e/ou selecionados de uma população que tem a função de representar, na mesma proporção, o universo estatístico. Por exemplo, se 54% da população brasileira é composta por negros, logo a amostra deve deve retratar e distribuir na mesma proporção a quantidade de negros em sua pesquisa. Assim, a amostra deve ser uma reprodução do universo a ser representado, com as mesmas proporções de segmentos sócio-econômicos.


Após a definição do grupo de amostragem, parte-se para as entrevistas, no qual serão abordadas pessoas que possuem justamente essas características definidas, que podem ser feitas tanto na casa da pessoa quanto em algum local com bastante fluxo de gente ou até mesmo por ligação, isso vai depender da metodologia de cada instituto.


Feitas as entrevistas, é aplicado o método de verificação, onde o instituto de pesquisa entra em contato com 20% dos entrevistados, para conferir se os dados anotados estão corretos. Isso evita manipulação do resultado por parte do entrevistador.


Após esse processo, os dados são enviados para análise, onde os estatísticos examinam por vários métodos até chegar ao resultado. Concluído esse processo, a pesquisa é registrada na Justiça Eleitoral em até cinco dias antes da sua divulgação. Esse processo de registro é importante, pois é justamente nessa etapa que o instituto apresenta um documento com os dados do contratante, valor pago, questionário aplicado e métodos utilizados. Assim, a Justiça Eleitoral examina o material para comprovar sua confiabilidade e a pesquisa pode ser divulgada.


Recapitulando as etapas de uma pesquisa eleitoral:

Etapas de uma pesquisa eleitoral

1- Contratação

2- Definição das variáveis para a amostragem

3- Entrevistas

4- Análise dos dados

5- Registro na Justiça Eleitoral

6- Divulgação

Conforme apresentado, uma pesquisa eleitoral não é um processo simples, trata-se de um estudo científico complexo que segue diversos parâmetros e métodos bem claros. Este mecanismo é necessário justamente para evitar qualquer tipo de manipulação na pesquisa e apresentar um resultado de amostragem bem próximo da totalidade da sociedade.


A pesquisa reflete 100% da realidade? Não, a pesquisa possui uma margem de erro, mas a partir da amostragem busca-se chegar bem próximo da realidade. Com variáveis bem demarcadas o resultado será bastante exitoso. Uma imagem que ajuda a visualizar essa relação entre amostragem e o todo é a coleta de sangue. Não é necessário tirar todo o sangue para saber se você está ou não com colesterol alto. Assim, não é necessário entrevistar todo brasileiro para saber quem vai ganhar a eleição.


A margem de erro é uma estatística que expressa a quantidade de erro amostral aleatório nos resultados de uma pesquisa. Refere-se ao máximo de erro que uma pesquisa pode ter e vem sempre acompanhada do nível de confiança, que é o número de vezes que a pesquisa pode ser repetida, e o resultado será sempre um valor próximo. Geralmente, as pesquisas apresentam 2 pontos percentuais de margem de erro com 95% de nível de confiança. Nesse sentido, se a pesquisa for repetida 100 vezes, em 95 delas os resultados estarão dentro da variação de 2 pontos percentuais para mais ou para menos.


Por que enquete nas redes sociais não é válida como pesquisa eleitoral?


As pesquisas eleitorais são feitas a partir de estudos estatísticos bem claros com objetivo de representar em uma amostragem o universo da população brasileira. Já as enquetes, seja de sites, facebook, instagram ou página na internet, não tem o controle amostral de quem vai responder às perguntas e muitas vezes quem responde está inserido em uma mesma bolha social. O resultado disso é a desproporcionalidade dos dados em relação ao universo amostral. Por exemplo, se um blogueiro de esquerda faz uma enquete em seu perfil, o resultado certamente será o do candidato que o blogueiro apoia, pois a maioria dos seus seguidores se identificam com os mesmos ideais.


Considerações finais


Como apresentando, as pesquisas constituem parte importante do processo eleitoral, pois é a partir delas que os eleitores conhecem as chances de vitória dos candidatos, bem como partidos, cientistas políticos e demais grupos interessados avaliam a viabilidade das candidaturas. Entretanto, nos últimos anos as pesquisas vêm sofrendo ataques por parte do presidente Bolsonaro e de seus apoiadores questionando a veracidade das pesquisas. Recentemente, Bibo Nunes, deputado do PL, mesmo partido do presidente Bolsonaro, propôs um projeto para multar institutos de pesquisa que errarem os resultados. Durante os debates da Reforma Eleitoral de 2021, as pesquisas também ganharam centralidade. O presidente da Câmara, Arthur Lira, sugeriu uma “retaguarda” de até 15 dias antes do pleito para divulgação de pesquisas eleitorais e outro projeto também foi apresentado que censurava divulgação de pesquisa da antevéspera até o dia da eleição, bem como as pesquisas de boca de urna para evitar qualquer intenção de voto útil. Tais propostas, ao invés de reformar positivamente o processo eleitoral, acabam por enfraquecer a democracia, uma vez que as pesquisas são parte indispensável das eleições.


 

Sobre o autor


Rennan Pimentel é Mestrando no em Sociologia e Antropologia na UFRJ, graduando de licenciatura em Ciências Sociais pela UFRJ e bacharel em Relações Internacionais pela UNESA/RJ. Pesquisa sobre Pensamento Social, Política e Democracia e participa do Núcleo de Estudos Comparados e Pensamento Social (NEPS) e no Núcleo de Estudos sobre a Democracia Brasileira (NUDEB), ambos no IFCS/UFRJ.


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