Como uma candidatura de esquerda se elegeu em meio ao conservadorismo catarinense


Seguindo na missão da BaseLab de entender e sistematizar o conhecimento, conversei com Eduardo Zanatta (PDT), vereador eleito em 2020 na cidade de Balneário Camboriú.


Graduado em Relações Internacionais e mestre em planejamento territorial, começou sua carreira na militância por meio do movimento estudantil universitário e participou de diversos conselhos e delegações, como o Conselho Municipal de Juventude de Balneário Camboriú, o qual foi presidente, e o Fórum de Política para a Juventude das Nações Unidas. Foi chefe de gabinete na Câmara dos Vereadores de Balneário por quase oito anos, onde aprendeu sobre a dinâmica legislativa na prática.


A campanha de Eduardo começou tardiamente, uma vez que resolveu esperar o vereador com quem trabalhava assumir publicamente que não iria tentar uma reeleição. Assim, apenas em junho de 2020 lança sua pré-candidatura e começa o processo de planejamento eleitoral.


Sobre o planejamento da campanha, Eduardo contou com o apoio de dois mentorados da Baselab, Fernanda e Felipe, que o ajudaram desde o início a criar um planejamento e ofereceram apoio essencial nas mídias digitais. Zanatta destaca que como parte importante do processo de planejamento e sucesso da sua campanha a compreensão da realidade do município (que elegeu Bolsonaro em 2018 com 80% dos votos) e a determinação do público. Tendo em mente quem era seu eleitorado, definidas como pessoas que votaram no Haddad e no Ciro Gomes em 2018 e jovens (pessoas até 40 anos), as estratégias de campanhas foram traçadas já para atingi-las, o que favoreceu o uso do pouco tempo de campanha. Aqui vale destacar que durante e após a campanha, Eduardo notou, e concordo com esta análise, que muitos cidadãos percebem a política municipal e federal de maneiras diferentes, tendo, então, obtido apoio de pessoas que votaram no Bolsonaro, mas que também confiaram o voto ao projeto que ele propunha


Quanto à equipe de trabalho, esta foi constituída por voluntários: amigos, professores, estudantes universitários e secundaristas, servidores públicos do legislativo e executivo municipal e contou com diversidade de gênero e raça, tendo, inclusive, alocado umas das voluntárias no mandato, uma jovem militante e quilombola.


Sobre o financiamento da campanha, foi feito um financiamento coletivo que arrecadou quase todo o valor estimado de gastos (20 mil reais). Este dinheiro foi empregado na confecção de materiais impressos, bandeiras e impulsionamento de mídias digitais. Não houve remuneração da equipe, exceto pelo fotógrafo e uma ajuda de custo de deslocamento para dois jovens estudantes.


Sobre as mídias digitais, Eduardo entende que foram essenciais para o sucesso da campanha e considera o desempenho do Facebook melhor que no Instagram. Ele buscou dialogar com pessoas reais online, conversar sobre os problemas da região, mostrar verdade e humanizar o perfil. Também houve um trabalho no Whatsapp, no qual cada apoiador indicava de 10 a 15 pessoas e o responsável iniciava um trabalho de dark social. Além disso, foi criado um plano de ação para os últimos 10 dias de campanha - aqui vale destacar que a maioria da população decide o voto nos últimos dias/momentos - que conseguiu atingir diversas pessoas e aumentar a exposição.


Além disso, foi utilizada a plataforma Mlabs, que auxiliou na organização e monitoramento das mídias digitais, garantindo inclusive, acompanhar o desempenho dos concorrentes. Dessa forma, foi possível medir a qualidade dos anúncios em relação aos concorrentes, auxiliado na estratégia de atuação digital.


Eduardo também relatou que sua maior dificuldade foi não poder ir para a rua, fazer rodas de conversas e discussões ampliadas, como se faz tradicionalmente nas campanhas eleitorais. Mesmo assim, foram implementadas algumas ações de rua, com os devidos cuidados, foram algumas dessas ações:


  • Visita a comércios e avenidas da cidade, ele mesmo para se apresentar, colocar-se como candidato pela primeira vez e falar sobre suas propostas;

  • Criação de um comitê, no qual as pessoas poderiam passar, tirar fotos em um painel decorado com os principais eixos da campanha (isto foi replicado nas redes dos apoiadores de maneira orgânica);

  • Passeios de carro na orla da praia com bandeiras, atividade feita no último final de semana.


Por fim, perguntei o que ele faria diferente e o que considera que deu muito certo. Eduardo disse que o trabalho nas redes digitais, o rompimento com o individualismo da campanha e a conquista de apoio de pessoas que estavam dispostas a expressá-lo para outras (principalmente no meio digital) foram ações que deram muito certo e fizeram a diferença na campanha. Quanto ao que fazer diferente, um planejamento com maior antecedência e menor quantidade de material impresso ganharam destaque, mas também as ações de bandeira foram citadas como algo que funcionou legal e poderia ser feito durante toda a campanha, não apenas na última semana.


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