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Questões identitárias e a constante reinvenção do profissional de campanha

Por Antonio Banchik Dizer que o profissional de campanha eleitoral também precisa ser capaz de se adaptar e readaptar constantemente pode, e deve, soar um tanto redundante. As campanhas têm um objetivo claro: conseguir o maior número possível de votos. Para isso, a narrativa criada por toda a equipe acerca do material de campanha e do comportamento que o candidato deve seguir precisa acompanhar, a todo vapor, as tendências identitárias mais recentes que a conjuntura política e social impõe sobre nós, eleitores. “Acompanhar” não significa necessariamente compactuar, mas levar em conta -na formulação de estratégias de campanha- esses fatores que têm profundo impacto no campo da política e da sociedade civil, transformando drasticamente o governo de vários países.


Ondas ideológicas e as novas regras do jogo


Tais fatores podem ser exemplificados através de fenômenos como a “maré rosa”, ou “guinada à esquerda”, que ocorreu na América do Sul. Esse período foi marcado pela ascensão política de muitos chefes de Estado ligados à esquerda, começando no final da década de 1990 e chegando ao fim por volta de 2010, com a chegada da “maré azul”, que como o nome indica, representou a tomada do governo por políticos de uma direita extremista e conservadora. O que aconteceu depois nós já sabemos, e pode ser facilmente ilustrado a partir de vitórias eleitorais como a de Trump e Bolsonaro.

Podemos acrescentar, nesse breve resumo de fenômenos políticos e ondas ideológicas que remetem em grandes transformações do mundo da política, o fator indispensável da tecnologia. Hoje, a divulgação em massa de conteúdos verdadeiros ou falsos constitui uma nova forma enviesada de se fazer política, e já não é mais novidade que a utilização das redes sociais para globalizar “falsas verdades” foi uma entre as grandes estratégias eleitorais responsáveis por essas vitórias da extrema direita.

Nós, progressistas, precisamos correr contra o prejuízo para que tenhamos voz nesses novos espaços que a extrema direita se antecipou para dominar. Portanto, com uma ressalva clara (nem para todos), de seguir os limites estabelecidos pela lei! Lei esta que tem se esforçado para conter a ameaça que a tecnologia e os poderosos bancos de dados representam, a partir da aprovação da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) no Brasil. Também é válido relembrar que o Facebook mudou os métodos para criação e impulsionamento de anúncios políticos, instalando toda uma nova burocracia que dificulta e atrasa a veiculação desse tipo de conteúdo.


Globalização, modernidade e identidade


Não podemos pensar na conjuntura atual e nessas novas “regras” do fazer político sem levar em consideração as condições que possibilitaram todo esse poder da internet, que não por acaso estão fundamentalmente ligadas com a recente facilidade que as ondas ideológicas adquiriram para ultrapassar fronteiras, influenciando países em larga escala. Essas condições são produtos da globalização, sendo esta um dos principais aspectos da modernidade. Aqui, resgato o pensamento de David Harvey:


“A modernidade não apenas envolve uma implacável ruptura com todas e quaisquer condições históricas precedentes, como é caracterizada por um interminável processo de rupturas e fragmentações internas inerentes” (1993)

As rupturas e fragmentações internas inerentes que Harvey menciona conversam de forma muito coerente com o pensamento de outros teóricos modernos, como Stuart Hall. Ao discorrer sobre as questões de identidade atualmente, o sociólogo africano nos ajuda a compreender que vivemos um momento em que as tradições e práticas sociais são constantemente desafiadas e influenciadas pela crescente e invasiva interconexão global. Ao marketing global de estilos, lugares e imagens não se fazem dispensáveis as ondas ideológicas e opiniões políticas.

Ideologia para Anthony Downs é um “atalho”, que poupa o eleitor na hora do voto. O discurso político goza da identificação como um dispositivo que representa a diferença como vaidade ou identidade. Portanto, para o profissional de campanha aliado ao perfil progressista, é necessário ter o domínio não só dos novos espaços onde o jogo é jogado, mas também o pleno conhecimento das principais correntes de pensamento e ideologias com poder de influência nos eleitores.



Antonio Banchik faz parte do Nossa Base, um projeto BaseLab para capacitação de profissionais que atuam em campanhas eleitorais. Ele está disponível para trabalhar em campanhas e em apoio a mandatos no Rio de Janeiro.


Sobre Nossa Base

É a primeira rede brasileira de profissionais eleitorais progressistas espalhados pelo Brasil.

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